Entrevista

Da autopublicação ao contrato com a Verus e a Rede Globo, Gustavo Ávila fala com o FAZMELER

O nome do escritor Gustavo Ávila será ouvido muito mais em 2017 e em diante.  Vindo da autopublicação com o livro que dominou os melhores canais literários em 2016, O sorriso da hiena agora é da Verus, agenciado pela MTS. Os direitos do livro? Comprados pela Globo. Quem pode imaginar o que vem por aí…?

Gustavo bateu um papo com Stefano Sant’Anna, Diretor do FAZMALER, e contou um pouco de sua trajetória. Numa entrevista recheada com bons conselhos e simpatia, o autor desvenda os mistérios da autopublicação, conversa sobre o panorama do mercado literário e discute o preconceito com a literatura nacional. Confiram abaixo:

Quais os maiores desafios no processo de elaboração de uma trama tão complexa quanto O sorriso da hiena?
Acredito que o mais importante é pensar no que a história quer dizer. No que ela quer passar enquanto é lida e, principalmente, o que ela vai deixar quando o ponto final da última linha for lido. Acho que esse é o maior desafio: se manter fiel à mensagem que você quer passar e não cair nas armadilhas que vão se formando no decorrer da escrita simplesmente pela estética da trama.

Todo mundo sabe o quão difícil é fazer seu livro auto-publicado aparecer na mídia. Você fez isso muito bem. O que levou em consideração nas estratégias de marketing?
Como trabalho há mais de 10 anos com publicidade, eu tinha nas minhas mãos um certo conhecimento para trabalhar o marketing do livro. Mesmo assim, tive que pesquisar a fundo como trabalhar com ele, já que nunca tinha feito, como publicitário, nada em relação ao mercado literário. Então pesquisei o que as melhores editoras fazem para divulgar suas obras, o que autores fazem por conta própria, quais os meios de comunicação mais usados e que, visto de fora, pareciam com melhor retorno. Quem se auto-publica precisa se embrenhar neste meio, aprender mesmo. Além disso, depois de toda a pesquisa é precisei fazer algumas escolhas porque não seria possível fazer tudo que estava a disposição do mercado literário pela limitação financeira. Publicidade é algo caro. Grandes veículos cobram caro por seus espaços. É preciso encontrar o que está nas suas possibilidades.

Finalmente, o que você encontrou de precioso?

Os canais literários na internet. Booktubers, perfis do instagram, blogs. Descobri, por experiência própria, que eles são os melhores canais para divulgar uma obra literária. Talvez mais até do que os grandes meios de comunicação, porque ele são focados, tem um público que quer aquilo que você está querendo mostrar. E foi um privilégio enorme trabalhar com eles, porque eles, diferentes dos grandes meios, estão super abertos a novidades, abertos a conversar com quem é pequeno. E se eu puder dar uma dica para quem quer divulgar seus livros, tanto autores independentes, como para as próprias editoras, procurem os canais literários no YouTube, no Instagram, nos blogs. Trabalhem com eles. É um trabalho que merece ser reconhecido pela contribuição que estão fazendo no cenário literário do nosso país.

Qual foi a maior lição que você tirou do processo de publicação independente até a assinatura de um contrato com a Verus?
Que nada se conquista sozinho. Se você for gentil e sincero, terá pessoas incríveis abraçando seu trabalho, sonhando seu sonho junto com você. E essas pessoas farão toda a diferença na sua vida, tanto profissional quanto pessoal.

O sorriso da hiena, por @waldirenebandeira.

Você conheceu a Marianna da MTS através da leitura crítica. Como aconteceu esse contato?
Enquanto procurava uma editora, comecei a procurar também algum agente literário, porque eles possuem as chaves para as portas que você quer abrir. É muito mais fácil trabalhando com um deles. Um bom agente, claro. Quando procurei a Marianna, ela estava fechada para novos autores, já que não podia receber nenhum outro devido a limitação de tempo mesmo. Mas ela me falou sobre o trabalho de leitura crítica e, como resolvi lançar de forma independente, percebi que seria bom ter um olhar profissional antes de colocar pra rodar. Fizemos esse trabalho juntos e, depois de um tempo do lançamento, uma editora me procurou com interesse em publicar o livro pra valer. Como não entendia nada de contratos de livros, tive medo de assinar sem saber se estava fazendo um bom negócio e pedi ajuda para a Marianna que, gentilmente, pegou o contrato para me ajudar.

Você imaginava que ela poderia algum dia se tornar sua agente?

Bom, é aí que entra um bocadinho de sorte na história. Foi neste período que a Marianna estava trazendo para a equipe dela a Luciana Bastos Figueiredo. Caso a Luciana realmente fosse entrar na agência eu poderia ser agenciado pela MTS, agora que teria uma outra profissional para atender novos autores. E foi assim que aconteceu. A Luciana entrou, eu comecei a ser agenciado pela MTS e foi a Luciana que fez as negociações. Com essa editora que entrou em contato comigo e com outras. No fim das contas, fechamos com a Verus, que ofereceu um proposta mais interessante.  A sorte também dá uma boa ajuda para as coisas acontecerem. Mas como dizem, é preciso estar pronto quando ela aparece.

E então os direitos de O sorriso da hiena foram adquiridos pela Globo. Dá pra adiantar o que vai sair desse contrato?

Na verdade não há muito o que adiantar (risos). Eles tem dois anos para decidir se vão fazer algo ou não com a obra. Então, ainda não sei de muita coisa. E tento nem pensar nisso, agora é algo que não está em minhas mãos. Não sei se vai virar uma minissérie, filme, ou se não virar nada eu pego os direitos de volta. Vamos ver o que acontece. Mas é algo que estou empolgado para ver.

Li seu post com dicas para aspirantes a autores. Acha que eles tem queimado etapas?
Eu tive contato com alguns autores através da internet. Acho natural acontecer de queimar etapas, até faz parte do aprendizado. Mas é necessário um pouco mais de pesquisa e planejamento por parte de alguns, justamente para evitar que algum passo errado acabe prejudicando demais. Acredito que não há a necessidade de pensar em outros autores como concorrentes. Não estamos vendendo carros, o leitor não vai comprar o livro de um e só comprar outro daqui a cinco anos. Pelo contrário, se um leitor lê um livro nacional e gosta, isso pode despertar nele a vontade de ler outro livro nacional. Então, no que eu puder ajudar outros autores a também conseguirem sem espaço, a colocarem seus trabalhos na rua, farei com o maior prazer.

Mesa onde o autor escreve suas histórias

Onde você acha que os novatos ainda precisam acertar?
Acredito que os novos autores precisam tomar cuidado com duas coisas: primeiro, a pressa. A pressa em escrever, a pressa em não revisar a história com cuidado, a pressa em entregar para uma editora, a pressa em ter uma resposta, a pressa em vender. Normal querer que as coisas aconteçam, mas é preciso cuidado para, primeiro, ter o melhor material nas mãos e depois para não se frustrar rapidamente com a demora que as coisas acontecem. O segundo cuidado é com a forma de se relacionar com as pessoas do mercado. Todo mundo tem outras coisas pra fazer além de ver o nosso trabalho. Então é preciso chegar com jeito, ir atrás mas ter tato para lidar com as pessoas, com o tempo de cada uma, ser mais tranquilo. É meio complicado, porque você tem que ter paciência, mas não pode ficar esperando as coisas simplesmente acontecerem. É um processo de aprendizado.

Como foi estudar com o Marcelino Freire e em que momento você identificou a necessidade de um curso de escrita?

Foi excelente por vários motivos. Primeiro porque ele foi a primeira pessoa, o primeiro escritor a realmente me orientar sobre o assunto. E é um cara que já está nesse meio há muito tempo. Foi um grande aprendizado, não só de escrita, mas do meio literário. E segundo porque na oficina com ele, em uma oficina literária em geral, você ganha um prazo para terminar seu trabalho. E nada melhor que um prazo para você realmente trabalhar.

Você nasceu em SP depois foi pra Floripa. Depois SP e agora Floripa de novo. O vai e vem tem a ver com sua carreira?
A primeira parte foi mais em relação a carreira publicitária. Na verdade, a primeira vez que mudei pra Floripa foi porque queria morar sozinho, sair da casa dos pais, mas não queria ir pra São Paulo capital. Então vim parar aqui. Depois fui pra SP capital com foco total na publicidade. E foi ótimo. Lá aprendi demais. Inclusive, o que aprendi lá uso hoje na literatura. E a vinda para Floripa, novamente, essa sim foi focando na literatura. Trabalhar menos em publicidade e mais com minhas histórias.

Onde você vendeu O sorriso da hiena em maior quantidade: online ou físico?
Acredito que, devido aos número de exemplares físicos que não eram muitos, fiz 500 exemplares, vendi mais online. Mas vendi praticamente todos os físicos, o que não é pouco para uma publicação independente, isso em pouco mais de três meses. Não vendi todos porque tive que parar as vendas depois de assinar o contrato com a Verus. O restante eu usei para enviar aos canais literários na internet e distribuindo para algumas outras pessoas.

Como analisa o mercado literário no Brasil?
No final do ano passado eu vi uma pesquisa apontando uma queda na venda de livros. Então, o cenário não é dos melhores. Mesmo assim é muito bacana ver novos autores aparecendo e tentando ganhar seu espaço (e eu me coloco nessa lista). Mas se tem algo que ainda precisamos trabalhar muito é a questão de ler mais autores nacionais, tanto os autores já consagrados como os novos.

Você acha que ainda existe preconceito sobre a literatura nacional?

Sim! O autor internacional já vem com um selo de qualidade só porque é de fora. E sabemos bem que ser de fora não garante qualidade nenhuma. Claro que isso tem a ver com o fato de muitos deles virem para o Brasil já tendo feito barulho lá fora. Isso vende, claro. Mas é só ver nas livrarias, a estante dos livros nacionais. Dê uma olhada a área que ela ocupa. E por que ter essa separação? Livros nacionais, livros internacionais. Porque não separar apenas por ordem alfabética ou por gêneros? Mas isso ainda é um detalhe do todo. Na verdade, um reflexo. Uma loja vai fazer o que o mercado quer. Então, se há uma procura maior por livros internacionais, claro que eles terão mais espaço.

Acha errado um brasileiro ler mais autores internacionais do que nacionais?

De forma nenhuma. O que precisamos é retrabalhar esse conceito que ainda pesa na literatura nacional, que ela é chata. Como o cinema nacional, por exemplo, que sofre a mesma coisa. A arte nacional, em geral. E isso é algo que precisa ser trabalhado lá no começo, na garotada. Dentro de casa, com mais incentivo das famílias com a leitura. Na escola, com acesso a livros que façam as crianças se encantarem por esse universo e não ter raiva dele porque precisam ler um livro que nem entendem para um fazer um trabalho escolar. A cultura precisa ter mais apoio. A cultura como um todo, aliás.

E agora, o que virá de novo com a publicação do livro pela Verus? Já dá pra saber o número da tiragem?

Sinceramente, ainda tenho poucas informações sobre o que acontecerá. Ainda não conversamos sobre a edição, data de lançamento, se haverá mudança da capa ou não. Estamos começando a conversar sobre isso. Sobre a tiragem, o praticado normalmente em publicações nacionais são 3 mil exemplares, para começar.

Em que momento você escreveu Pá de Cal e como os leitores reagiram à leitura?
Pá de cal é um conto que eu já tinha a ideia guardada. Quando a edição independente do O sorriso da hiena estava indo para a gráfica, eu peguei esse tempo para escrever o conto e ocupar a cabeça, que estava ansiosa demais para ter o livro nas mãos. Escrevi o conto em duas semanas e coloquei na Amazon. O retorno está sendo excelente. A maior crítica “negativa” até agora que tive dele foi que gostariam que não fosse um conto e sim uma narrativa maior, um livro, porque queriam saber mais sobre os personagens e aquele mundo que ficou por trás do cenário onde se passa o conto. Estou bastante feliz com isso.

O que você pode adiantar sobre Quando a luz apaga?

É difícil adiantar muito porque como estou no processo de escrita, ainda tem algumas coisas que eu não sei se manterei em segredo ou se irei revelar de cara. O que posso dizer é que será um romance policial e terá o mesmo detetive do “O sorriso da hiena”, o Artur, porém será uma história que acontece antes, sem nenhuma ligação de uma com a outra. Melhor eu não revelar muito, por enquanto…

 

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