Entrevista

“Livros são, ainda, nossa porta para além da realidade”, diz Guta Bauer em entrevista ao FAZMELER

É óbvio que Guta Bauer atendeu ao FAZMELER atrás da mesa de trabalho. Sua agenda é uma loucura. Ela é sócia-fundadora da Increasy, uma das agências jovens mais faladas do mercado. Ao mesmo tempo, trabalha com T.I. e Contabilidade. Sonserina amante de livros e música, Guta mantém ligações com grandes editoras e já agenciou diversos títulos de autores nacionais.

Em 2017, a Increasy planeja crescer em cerca de 70% a quantidade de livros lançados intermediados ou organizados pela agência durante em relação a 2016. Entrevistada pelo Diretor do FAZMELER, Stefano Sant’Anna, Guta falou sobre os sonhos desde menina, os desafios de uma agência literária no Brasil e o perfil do jovem autor nacional. Confira a seguir:

 

Quais os melhores livros em sua estante?

Eu tenho um carinho muito especial pelos livros de Harry Potter, obviamente, pois fizeram parte da minha formação, evolução e me trouxeram amigos que carrego para vida toda. Mas não posso deixar de citar a série As Fronteiras do Universo, de Phillip Pullman. Quando tive contato com essa série, estava em uma fase questionadora de fé e crenças, e os livros abriram o caminho para um universo de outros conhecimentos e interesses, principalmente pela maneira incrível que Pullman tem de escrever metaforicamente, ou às vezes diretamente, sobre o tema, em um panorama que fala com você.

Como você descobriu que queria trabalhar na área editorial?

Sempre li, desde que me conheço por gente. Brinco que lia mesmo quando não sabia ler. Minha relação com os livros sempre foi de companhia, de proximidade, e meus pais sempre incentivaram muito esse meu “vício”. Então meu sonho de trabalhar na área editorial vem desde muito nova, embora na época eu ainda fosse apenas uma sonhadora e quisesse mesmo ter uma editora.

Então você investiu direto na área editorial?

Bem, o sonho ficou em standby por alguns anos durante minha formação em T.I., mas um dia abri um blog para falar sobre livros (em conjunto com a Mariana Sosnick, que conheci por meio de Harry Potter e hoje é, sem dúvidas, minha melhor amiga) e entrei de cara no funcionamento do mundo editorial. Parcerias, Bienais, etc. Tudo isso foi me aproximando daquilo que tinha ficado esquecido. Na Bienal do Rio de 2011, tive meu contato com essa ideia de ser analista crítica de editoras, e a partir daí as coisas fluíram naturalmente, progredindo para o trabalho que faço hoje.

Sua experiência na área de T.I. te ajuda em algum momento na carreira editorial?

Creio que uma das principais vantagens que uma carreira de exatas trouxe para minha carreira de humanas foi a capacidade de distanciamento, de analisar friamente situações, além do senso estratégico, essencial para entender o mercado editorial nos dias de hoje.

Você avalia originais para a Verus desde 2011. Como é sua relação com a Editora?

Maravilhosa! Tenho um carinho imenso pela editora, pelo catálogo e pelas pessoas que trabalham lá e fazem parte desta maravilhosa equipe que alcança cada vez mais sucesso. Independente de trabalhar, hoje, também do outro lado da moeda, oferecendo manuscritos e trabalhando autores, temos uma relação baseada em seriedade e sinceridade, dividindo bem as coisas.

Cada vez mais eu sinto que os jovens do país têm se interessado pela escrita. Como você enxerga essa evolução?

Extremamente benéfica. Quando eu estava em vias de concluir o ensino médio e precisar escolher minha carreira, definir meu rumo na vida, abri mão de diversos sonhos pela praticidade e coerência com minha situação, pois não existiam as oportunidades que existem hoje de trabalhar livros de maneira independente, praticamente sem custo. As editoras “encontram” talentos nacionais, têm a possibilidade de ver crescimento em rede, detalhes que anos atrás não havia como. E isso é benéfico para o mercado e para o leitor, que tem a oportunidade de conhecer talentos de pessoas que, antes, continuariam anônimas.

Como você define esses novo “talentos nacionais”?

Ávidos. Na pressa que todo jovem tem, muitos desses novos autores ainda estão crus, cheios de sonhos, cheios de vontades. E isso é maravilhoso, porque é motivador e essa é uma característica extremamente positiva. A vontade, o empenho.

Você acha que essa característica pode se tornar negativa?

Sim. Pra fazer dar certo alguns pulam etapas, não se informam, não aceitam orientações. Passam, muitas vezes, uma imagem de arrogância e sentem muito mais o baque de uma crítica negativa. E aí temos um ponto muito negativo. É preciso trabalhar muito bem as expectativas em novos autores. A pressa, nesse caso, não leva a nada.

Guta Bauer, parceiras da Increasy e a autora Larissa Siriani

Daí surgiu a ideia de criar a Increasy?

Sim. Tudo começou quando notamos que os autores nacionais que nos procuravam de forma individual para análise crítica precisavam de auxílio para navegar no mercado editorial. Recebíamos o tempo todo material muito legal, mas que não seguia em frente.

Não seguia em frente por quê?

Porque faltava comercial, planejamento, apresentar no momento certo, etc. Uma infinitude de coisas que acabava por fazer com que grandes talentos passassem batido.

Você acha que o papel do agente literário é claro e bem difundido no país?

Melhora a cada ano. Nos Estados Unidos é praticamente impensável publicar tradicionalmente sem agenciamento. É uma prática tão natural no mercado quanto precisar assinar um contrato. Mas aqui as coisas ainda estão se encaixando nessa metodologia, ainda estão saindo do escopo de “publicar é sorte” e indo para o escopo de “publicar é, também, estratégia”.

Quais as dúvidas que os novatos sempre têm?

As principais são: “depois de aprovado, em quanto tempo fecho um contrato com editora?” e “qual a mensalidade para o agenciamento?”. A ideia, em relação ao agenciamento, de que a agência só ganha se o autor ganha ainda é pouco palpável. E, também, a estrutura de mercado editorial ainda bastante desconhecida.

Quais os maiores desafios para vocês como uma jovem agência literária?

Ser uma agência nova é sempre desafiante, especialmente a partir do momento em que se deve fazer todo um trabalho com o texto antes de apresentar para as editoras. A aposta não é apenas no manuscrito que nos é apresentando, mas uma aposta na capacidade de que o autor possa desenvolver aquilo que a gente entende que vai ganhar um sim. Essa percepção, capacidade de percepção, é complexa e muito desafiadora.

A Increasy cobra para fazer a avaliação do livro antes de aceitá-lo ou não. Por que você diria que esse é um diferencial da empresa?

Porque faz parte daquilo que realmente queremos fazer: não apenas agenciar, mas assessorar. Quando projetamos o nosso modelo de trabalho, pensamos de cara que queríamos fazer algo bem diferente do “seu livro foi aprovado, seu livro foi negado”. Queríamos orientar, auxiliar o autor em relação ao seu livro no caso de uma negativa. Todas nós tínhamos experiência com análise crítica, e acreditamos que uma análise bem pontuada, detalhada, com exemplificação, permite que o escritor entenda mais a fundo o motivo de não estar sendo agenciado.

E esse claramente não é um serviço gratuito…

Não. Demanda muito tempo e cuidado, então optamos por cobrar, pois se um serviço é prestado, a alma do negócio é que ele precisa ser pago.

Você acha que as pessoas tendem a ver esse custo apenas como uma taxa de possibilidade de agenciamento?

Muitas pessoas compreendem dessa forma, mas não é só isso. Em muitas análises, negamos o livro, mas abrimos nosso tempo para ler outro livro do autor de graça, pois sentimos o potencial da escrita, mas não da história. Ou então negamos o livro até que ele sofra algumas modificações apontadas, e então reavaliamos sem custo.

Podemos falar de lucro aqui? Se você não é a Lúcia Riff, dirigir uma agência literária no Brasil é rentável?

Sim, é. Mas não espere retorno imediato. Serviços extras oferecidos geram um retorno imediato, claro. Mas para a agência se manter dentro de um mercado apenas nacional (sem representar livros internacionais) só com royalties, você precisa estar disposto a investir bastante tempo antes de ver algum retorno. Mas vale a pena, e não apenas financeiramente.

O que faz um agente literário decidir investir num livro? Existe uma fórmula?

Não. Aliás, nada pior que fórmula pronta. Escrever é, sim, muito planejamento e dedicação, mas é também cativar. E a análise não fica apenas no livro, mas no histórico do autor como um todo: seu relacionamento em redes, a forma como lida com críticas, a maneira como se empenha em relação a carreira, etc. Agenciar requer muita estratégia, e um tantinho de feeling em relação ao sucesso, ao viés do mercado e ao que o autor pode produzir.

O que te motiva a continuar investindo e apoiando o mercado do livros no Brasil?

Acredito firmemente que livros são possibilidades de salvações, de falar com pessoas quando elas precisam, ou nem sabem que precisam. Vivemos uma realidade não muito bacana, com muitos problemas. Livros são, ainda, nossa porta para além dessa realidade. E precisamos disso.

Quais as expectativas da Increasy para 2017?

Fechamos muita coisa bacana em 2016 com reflexo em 2017, então estamos prevendo um ano de muitos lançamentos e eventos. Nossa ideia é crescer em cerca de 70% a quantidade de livros lançados intermediados ou organizados pela agência durante 2017, em relação a 2016 e já começamos bem, com o lançamento do livro “De Malas Quase Prontas”, organizado pela Increasy. Temos, também, algumas cartas na manga para anúncio em breve, e prevemos uma conquista de mercado e novas editoras de trabalho bastante grande para os próximos meses. Crescimento é nossa meta para 2017.

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